Segunda-feira, 18 de Setembro de 2006

Libertação

É uma aldeia não muito longe do mar, encarcerada por barreiras montanhosas como se de pirâmides se tratasse, e onde só a maré todos os dias a visitava. As estradas são feitas de calçada à portuguesa, desgastadas pelos séculos e pela vida. Há caminhos de terra batida, por vezes íngremes, delimitados pelas paredes, algumas mesmo muralhas, feitas da velha Piçarra e onde o musgo e as ervas daninhas teimam em se instalar. Aqui e ali surgem os velhos portões de ferro coberto de alcatrão, verdadeiras fronteiras em redor das casas de pedra todas do mesmo branco sujo pelo tempo, caiadas com a cantaria habilidosamente picada a enfeitar, nos topos e nos cantos, os rústicos lares.

 Aqui o tempo veio sem pressas e, por isso, passa mais devagar. Lentamente, o gado puxa os carros que chiam, dirigindo-se para os pequenos campos, retalhados e dispersos; longe do povoado, avistam-se penosas leiras onde poucos ainda conseguem trazer algumas migalhas de pão, à custa de muito trabalho feito de sol a sol. Muitas vezes, até antes do dia acordar, já há aqueles que estão carregando a sua penitência. Curvados. Devagar. Tendo o tempo e a solidão como companhia. Vida dura, onde até a água tem de ser puxada do velho poço e a roupa lavada nas pedras polidas do rio. Mas agora esta agricultura impõem-se só para aqueles que dela viveram e sobreviveram. Os mais novos com a força da sua juventude, fogem, procurando novos rumos mais prometedores, deixando para trás os que já não tem força nem coragem nem vontade para os acompanharem.

É nesta terra humilde que mora Ti Elidio. Dos anos quase perdeu a conta e bastante abatido pela idade, bem merecia aliviara-se um pouco da fadigada luta pela vida. Vive só o Ti Elidio. É verdade que no rancho de filhos que com eles e os avós se criaram, ainda conserva alguns ali, como seus vizinhos e sempre que podem vêm visitá-lo. Mas e o resto do tempo. O baralho de cartas cheio de caruncho ou o dominó do armário cada vez fazem menos sentido pois já quase não há alturas para jogar com alguém. Viúvo passa as horas sozinho. Umas vezes na cama, no colchão de palha acordado, revirando-se de um lado para o outro, agarra dos aos cobertores e malhando com os dentes uns nos outros a tremer de frio. Outras vezes ao calor do lume ou ao calor das brasas com um gato “feijoeiro” que, de Inverno apenas descansa o corpo, aquecendo-se ao borralho. Mas do que Ti Elidio mais gosta é de estar na sala. Numa cadeira de baloiço, de madeira já picada do bicho, com uma almofada nas costas para “ aguentar as cruzes”, como ele diz, pois os rins já se vão queixando. Aí, lê uma e outra vez a Bíblia, que quase sabe de cor, para encontrar algum alento no destino que a todos nos espera. Outras vezes encontrando um pau no meio da lenha, afia-o com a navalha de enxertar, já de muito uso e algumas falhas, deixando cair as aparas no chão, como se fossem bocados da sua vida solitária. Ou com a sua paciência, vai carpinteirando alguma coisa escangalhada ou mais desconchavada. A maior parte das vezes, contudo, olha para as paredes daquela casa que já pertencera aos seus antepassados e que tinha ficado para ele pois fora quem cuidara dos pais, ao mesmo tempo que ia criando a sua numerosa família. Para melhor abrigar os seus, restaurara a casa com ajuda de mão amiga: telha nova, acrescentos, estuque. Mas isso foi há muito tempo. Tanto que o ti Elidio quase já nem se lembra quando. Agora é uma enorme mansão vazia, com ele prezo lá dentro. Nem á missa vai por lhe custar e não lhe ser aconselhável sair de casa.

Está perto o Natal. Esta é uma das poucas vezes em que a sua família se reencontra e, em conjunto, voltam a cheirar o odor da terra e daquelas paredes caiadas de branco impregnadas do sarranho dos bons chouriços defumados com lenha da região. Mas o Inverno onde as trevas ganham terreno á luz parece-lhe mais forte ano após ano. Longo, implacável, duro de suportar. É difícil para Ti Elidio fazer mais do que limitar-se a contemplá-lo da janela, a queimar tudo de leve geada, cobrindo as árvores nuas e secas com uma película branca, devastando, com pequenos dilúvios, as terras alagadas. Antigamente, estas inundações faziam prever uma abundante pesca do sável, com alegres serões agarrados às redes, aquecidos pelo calor do grupo de amigos. Longe vão esses tempos e Ti Elidio está velho. Com os olhos trémulos, vê, no vidro da velha janela, a sua imagem transparente, careca como a vinha no fim do Outono; o rosto preenchido de traços como se os sulcos que, ao longo de tantos anos, abrira na terra, tivessem acabado por se reflectir na pele; os lábios roxos denunciam a falta de cor e fervor de sangue velho, corcovado, de bengala, na carne flácida dos braços notam-se as veias dilatadas por onde já correram força e vitalidade. Só as suas mãos mantêm alguma força do passado. Mãos grossas, calejadas do trabalho que, cruelmente, só o sustentava com côdeas duras do pão que o diabo amassou pois fartura foi coisa que nunca conhecera. E agora “o diabo das dobradiças dos ossos” calcinadas pela idade, o “reumático” que pouco movimento lhe possibilita...

Em muito se assemelha Ti Elidio ao velho castanheiro do quintal, compadres na velhice e no desamparo. Também o castanheiro está no fim da sua vida, só com galhos secos sem folhas. Também outrora correra pelas suas veias a seiva viva e palpitante, dando muito fruto grande e saboroso, agora só pequenos ouriços deixam entrever castanhas pequenas e amargas, mal alimentadas pela seiva que ainda corre pelo tronco cada vez mais torto, cada vez mais frágil, dependendo, a custo das fracas raízes. Aqui e ali vai apodrecendo, enchendo-se de musgo e fetos e deixando-se cobrir por trepadeiras que o invadem e debilitando-o.

Este homem sábio da vida, amadurecido pela experiência e pelo sofrimento, perde no meio da solidão labiríntica, a noção do tempo. Fica longas horas agarrado às lembranças e recordações de quando tinha outro vigor, de quando a terra onde nasceu e cresceu estava possuída por uma imensa alegria. Um tempo onde era um rapaz de sonhos, de muita esperança e de algumas maroteiras e que convidava as moças para dançar ao som de músicas tocas por concertinas desafinadas. Por vezes, ainda consegue sentir as vibrações desses sons que logo se vão diluindo, regressando para sempre ao passado. Passado esse que agora embala nos seus braços na forma de um álbum de fotografias cheias de imagens. Pedaços de vida, dos quais se vai despedindo, aos poucos sempre que o abre.

Num dia igual a tantos outros, Ti Elidio tenta dar andamento às horas e vai entrelaçando, como só ele sabe, um cesto de vimes, sentado na cadeira de baloiço ao lado da janela, para aproveitar a claridade da luz matinal. Mas os dedos não obedecem e os vimes vão-lhe escorregando das mãos. Interrompe o que está a fazer. Olha fixamente para os vidros. No seu olhar, há luz e trevas. Há passado e presente. Há o tudo de uma vida cheia e o nada da solidão. Exausto, deixa que um suspiro lhe saia do fundo do peito, do fundo da alma. Encosta-se na cadeira, fecha os olhos e fica imóvel. Aí, lentamente deixa-se arrefecer, igual á pedra do velho granito que suporta a janela por onde tantas vezes olhou. A sua alma liberta-se, finalmente, do cativeiro da vida, da prisão da solidão. De rosto aliviado e de consciência tranquila deixando correr as magoas que há muito deviam ter sido choradas mas que a carne soube conter.

Sinto-me: Preso
Roído por Maganão às 09:29

Ratoeira do post | Envenenar (comentar!) | favorito
|
1 comentário:
De bielinha a 22 de Setembro de 2006 às 16:01
Fizeste-me lembrar a Avozinha...
Ainda que sempre com um anjo ao lado...a solidão, o passar dos anos sem se sentir prestável...
Tenho saudades...Adorei o texto...
Jogar a bisca do 3...
Uma cantoria sempre na ponta da lingua....
O castanheiro...
A eira...
A minh...nossa infância...
:')
*******Biela*******

Envenenar post

>‘.’<)---Culpados!

>‘.’<)---Mirones!


Contador Grátis

>‘.’<)---Atempadamente:

>‘.’<)---Ninhos de papel

>‘.’<)--- Agosto 2015

>‘.’<)--- Março 2015

>‘.’<)--- Julho 2014

>‘.’<)--- Dezembro 2013

>‘.’<)--- Novembro 2013

>‘.’<)--- Julho 2013

>‘.’<)--- Junho 2013

>‘.’<)--- Fevereiro 2013

>‘.’<)--- Outubro 2012

>‘.’<)--- Setembro 2012

>‘.’<)--- Agosto 2012

>‘.’<)--- Julho 2012

>‘.’<)--- Abril 2012

>‘.’<)--- Novembro 2011

>‘.’<)--- Setembro 2011

>‘.’<)--- Julho 2011

>‘.’<)--- Abril 2011

>‘.’<)--- Março 2011

>‘.’<)--- Janeiro 2011

>‘.’<)--- Dezembro 2010

>‘.’<)--- Setembro 2010

>‘.’<)--- Agosto 2010

>‘.’<)--- Junho 2010

>‘.’<)--- Março 2010

>‘.’<)--- Janeiro 2010

>‘.’<)--- Dezembro 2009

>‘.’<)--- Outubro 2009

>‘.’<)--- Setembro 2009

>‘.’<)--- Agosto 2009

>‘.’<)--- Julho 2009

>‘.’<)--- Junho 2009

>‘.’<)--- Maio 2009

>‘.’<)--- Abril 2009

>‘.’<)--- Março 2009

>‘.’<)--- Fevereiro 2009

>‘.’<)--- Janeiro 2009

>‘.’<)--- Dezembro 2008

>‘.’<)--- Novembro 2008

>‘.’<)--- Setembro 2008

>‘.’<)--- Abril 2008

>‘.’<)--- Março 2008

>‘.’<)--- Janeiro 2008

>‘.’<)--- Setembro 2007

>‘.’<)--- Agosto 2007

>‘.’<)--- Junho 2007

>‘.’<)--- Maio 2007

>‘.’<)--- Abril 2007

>‘.’<)--- Fevereiro 2007

>‘.’<)--- Janeiro 2007

>‘.’<)--- Dezembro 2006

>‘.’<)--- Novembro 2006

>‘.’<)--- Outubro 2006

>‘.’<)--- Setembro 2006

>‘.’<)--- Julho 2006

>‘.’<)--- Junho 2006

>‘.’<)---"Tocas"

>‘.’<)---Agosto 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
25
26
27
28
29
30
31

>‘.’<)---Farejar nesta toca

 

>‘.’<)---Queijos recentes

>‘.’<)--- Composição “As minhas fér...

>‘.’<)--- Considerações do Show (da...

>‘.’<)--- Há Volta...em Fafe!

>‘.’<)--- Passear ou ser passeado.....

>‘.’<)--- O amor e o coração…o fim ...

>‘.’<)--- Marés Vivas…o engodo!

>‘.’<)--- Peculiaridades do dia Rih...

>‘.’<)--- Promoções da Ordem

>‘.’<)--- Prémio Nobel - Mais que j...

>‘.’<)--- O que aconteceu?!

blogs SAPO

>‘.’<)---subscrever feeds